Depois de 60 dias de folga, o Musicness retoma atividades ainda no clima de ressaca pós Sónar São Paulo - e é exatamente o festival o objeto deste post.
Não há muito que se falar sobre o Sónar espanhol: o festival teve sua primeira edição em Barcelona em 1994 e em pouco tempo se tornou uma espécie de referência em inovação musical. O foco do evento são as novidades - ele se auto intitula como um festival de "música avançada" - e a curadoria dá atenção especial para a música eletrônica; ainda que nos últimos anos atrações de forte apelo popular sejam cada vez mais recorrentes.
Fora da Catalunha a vida do Sónar parece mais complicada (especialmente na América do Sul): em 2004 o SónarSound São Paulo e em 2006 o Sónar Buenos Aires foram bem recebidos pelo público mas não tiveram continuidade. Tóquio, no entanto, recebe desde 2008 edições anuais do SónarSound, uma plataforma na mesma linha artística, mas em formato menor.
No fim do ano passado foi anunciado que o festival catalão tentaria mais uma investida no Brasil, desta vez através da Dream Factory (mesma produtora do Rock In Rio). A nova tentativa parecia ousada: dois dias de evento e a ideia de fazer "o maior Sónar fora de Barcelona", nas palavras da organização. Divulgado o line-up, o cancelamento quase que de véspera de Bjork foi compensado com o anúncio do Kraftwerk.
Como foi: erros e acertos
A estrutura montada no Anhembi para as duas noites foi bem organizada e não teve maiores problemas de acessos, filas ou tumultos. Bares e banheiros estavam bem posicionados, mas a circulação entre as duas principais pistas era confusa.
Como todo grande festival que se preze, o Sónar São Paulo 2012 teve o "problema" de atrações que se apresentavam no mesmo horário em palcos distintos. No entanto, escalar nomes como Austra, John Talabot e Little Dragon para tocar no auditório chamado Sonar Hall foi cruel com o público - e mais ainda, com os artistas: limitou apresentações que ficaram deslocadas em um ambiente muito formal. A tentativa de incluir as atrações típicas do Sónar Dia barcelonês como exibições de cinema também não pareceu uma boa ideia (quem vai a um festival de música com tantos artistas internacionais dificilmente irá assitir filmes na madrugada).
Na parte artística, é impossível (e seria chato) fazer uma review detalhada de todos os shows (principalmente considerando os conflitos de horários), portanto me limito a fazer um relato muito pessoal e somente sobre o que vi ou inteiro ou quase tudo (e que, nesta condição, obviamente depende de fatores exclusivamente pessoais). Não vi na "íntegra", mas o que pude checar do Four Tet foi excelente!
Sexta-feira, 11/05:
James Blake (DJ set): Difícil avaliar Blake tocando como DJ para pouquíssima gente em um pavilhão imenso e com a expectativa maior girando em torno de seu show. Ainda assim não pareceu a melhor opção de horário nem de local, já que a linha "Dubstep de leve" não funcionou como warm-up pro Kraftwerk.
Kraftwerk (foto acima): os alemães entraram no palco e se depararam com uma multidão de óculos 3D a postos. A experiência em 3D é só um detalhe (ou uma desculpa) pra admirar ainda mais os caras: o Kraftwerk atual só tem um dos integrantes originais, mas estar há quatro décadas nos palcos e com disposição e competência pra apresentar novidade são, por si só, louváveis. O quarteto entregou um showzaço, emocionante pra quem é fã e surpreendente pra quem não é!
Chromeo: fez um show relativamente curto e cheio do bom-humor característico da dupla. O formato "banda pra pista" pode estar longe de ser unanimidade, mas a verdade é que não é preciso conhecer uma música deles pra sair dançando e se divertindo. Tipo de atração que funciona sem apelar, e na noite de sexta foi o grande destaque junto com o Kraftwerk!
Sábado, 12/05:
Alva Noto & Ryuichi Sakamoto: um "clássico" do Sónar (presente em várias edições do festival) caiu perfeitamente no auditório do Anhembi. Piano e música eletrônica com imagens sincronizadas emocionaram quem estava na platéia. Musicalidade intensa pra ser apreciada com calma.
Flying Lotus: cheio de influências do Dubstep e do Hip-Hop, o norte-americano chegou a se desculpar (ironicamente) no microfone por estar fazendo um show muito "pesado". Sobrou energia na apresentação que teve de tudo um pouco. O público delirou na homenagem aos Beastie Boys com um trecho de "Intergalactic", e sucessos antigos como "Tea Leaf Dancers" foram intercalados com faixas do próximo álbum - que ao que parece, deve ter muito Dubstep.
James Blake Live (foto): sério candidato a unanimidade do festival. Um auditório quase lotado conferiu uma vigorosa (e nada melancólica, como poderia ser) apresentação de Blake. "Limit To Your Love" próxima do fim e "The Wilhelm Scream" no encerramento, executadas com perfeição, valeram o ingresso do Sónar pra muita gente.
Seth Troxler: tocando com vinis, o DJ não precisou apelar pra hit algum pra segurar a pista cheia e empolgada. Pena que obrigaram o artista a encerrar às 03:30, e Seth fechou o set com um edit próprio pra ótima "Champagne Coast", do Blood Orange.
A organização do evento ainda não havia divulgado o público oficial do evento até o fim de domingo.
Fotos: Maurício Santana, Daniel Vorley e Robson Bento
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