Mais um filme com o Ryan Gosling que não entra em cartaz por aqui, "Lars And The Real Girl", e que se não fosse pelos torrents da vida, eu não teria visto e não estaria aqui escrevendo e falando bem e recomendando.
Esse "Lars" concorrreu no último Oscar como roteiro original e perdeu pra "barbada" (desculpem o trocadilho lésbico) "Juno", o que foi talvez a maior injustiça de toda premiação.
O filme é um primor, a história de um homem muito tímido, muito fechado, introspectivo, que mora na garagem da casa do irmão que, casado e com a mulher grávida, tem no personagem de Lars/Gosling uma preocupação a mais.
Lars trabalha numa empresa e não fala nada, é paquerada por uma colega e não fala nada, fica em casa sozinho, é prestativo na igreja e com a comunidade, todos gostam dele. Um dia ele vê um site onde você pode montar uma boneca em tamanho natural do jeito que você quiser. E ele anuncia a seu irmão e cunhada que arrumou uma namorada pela internet e que ela chega em alguns dias. E quando chega a boneca, ele apresenta pra todo mundo como sendo sua namorada que veio da Europa e que mal fala inglês e que não anda, assim ela fica numa cadeira de rodas pra cima e pra baixo. O mais bizarro do filme, mais ainda que a boneca e a atitude de Lars, é que a comunidade toda, por pena ou sei lá o quê, vai aceitando aos poucos a boneca como sim a namorada de Gosling. Ela vai a igreja, vai a festas, vai fazer trabalho comunitário em hospitais, fica morando na casa do irmão, porque ela é "de família" e não pode dormir com Gosling. O irmão é o que pira rapidamente, não aceitando a "palhaçada" toda, mas é convencido pela esposa de que é bom pra Lars.
O roteiro é brilhante, a sacada de resolução do problema boneca é genial e Gosling no papel do estranho Lars tem atuação merecedora de todos os prêmios possíveis e imaginários, fugindo de clichês de Rain Man's e afins, provando sim que ele é o melhor ator de sua geração, sem a menor sombra de dúvida.
O outro filme de Gosling perdido por aqui é "Half Nelson", que conta a história de um um professor de história, que dá aula numa escola de periferia para adolescentes. Ele dá umas aulas boas, conversa de igual pra igual com os alunos e os caras curtem ele e tudo mais. Só que o cara é um junkie, viciado em heroína e crack e outras coisas bem leves. E o filme é a história desse cara, de como ele se perde, de como ele se joga e de como ele vai se acabando. Ele fala com os alunos, dá conselho, compra heroína do irmão de uma aluna, depois compra dela e mesmo assim sabe o que dizer na hora certa e sabe o que não dizer na hora errada. Ou certa também.
O segredo aqui é não terem feito nenhum juízo a respeito das drogas ou da vida que ele leva. O filme conta a história dele e mostra o que acontece e já tá ótimo. Foda isso! E bem raro no cinema atual, onde sempre tem alguém apontando o dedo pra alguma coisa, pisando em algum calo.
Em Half Nelson, os calos são mostrados, as feridas escancaradas, mas ninguém sacaneia e machuca mais o que já tá ferido. Eu acho que um filme desses mostra o quanto um diretor é fodão e tem culhão e tem controle sobre o filme, porque pra fazer disso um filme "anti drogas moralizante" é meio passo que não foi dado.
E o melhor é terem achado um ator como Gosling pra um papel desses, sem se mostrar mais que o personagem, sem querer aparecer e por isso mesmo mostrando quem é.
Filmes como Half Nelson são raros e de onde menos se espera que um filme desses seja feito, é de lá que vem!
I am a dj, I am what I play.




E realmente o Lars merecia o oscar de roteiro, infinitamente melhor que Juno!