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Pra que serve um crítico musical?
18.04.08 16:20

Lester Bangs
Lester Bangs
Pra que serve um crítico musical nos dias de hoje?

 

Na era pré-digital, o crítico musical era uma figura bastante poderosa. Nesse tempo, ele era o cara que ouvia o disco antes de todo mundo e sacramentava no papel do jornal ou da revista um veredito sobre o álbum X ou a banda Y. Veredito esse que poderia acompanhar o artista por muitos e muitos anos. O crítico era amado ou odiado por fãs, bandas e gravadoras. O crítico era relevante na engrenagem da indústria musical.

 

Eu mesmo descobri outro dia que os Titãs nunca se esqueceram de uma resenha que fiz para a Bizz, em 1992, onde falei que sua performance num show tinha sido "murcha como um palhaço desdentado" (eita analogia esquisita, quero crer que hoje aprendi a escrever um pouco melhor).

 

A crítica funcionava muito como um orientador, uma peneira, estimulando ou não a compra de um disco.

 

ERA DIGITAL

Com a era digital, vieram os MP3s, os P2P, os downloads, os blogs, os streamings e os vazamentos. O acesso a qualquer tipo de conteúdo musical saiu da cadeira cativa para a geral. Até sair a resenha, um disco já foi escutado por uma porção de gente. E todo mundo já tem, então, sua opinião sobre o referido disco e não precisa de alguém dizendo "aqui está o futuro da música".

 

Bom, esta é a interpretação mais óbvia.

 

Mas ela se baseia numa leitura superficial. Porque um crítico de música pode e deve ser bem mais do que um jurado de programa de auditório, um cara que faz nada mais que dar uma nota para um disco. Tampouco deve ser o crítico um cara que apenas descreve um disco de maneira técnica e fria, como muitos fãs antigamente achavam que devia sair (quantas cartas para a Bizz não falavam "não quero saber sua opinião, quero saber como é o disco")

 

A boa escrita musical vai muito além disso. O bom crítico oferece contexto, teorias, informações pouco conhecidas sobre o artista, faz ligações entre uma obra e eventos culturais do presente, momentos históricos ou outros artistas.

 

Por exemplo, quando eu era leitor ávido da Bizz, antes de trabalhar lá, devorava os textos não só por causa do artista focado pelo texto mas por uma porção de outras referências que me eram apresentadas: suas influências culturais, outras bandas da qual fez parte, o autor original de alguma cover que ele gravou. Textos de gente como André Forastieri, Pepe Escobar, Bia Abramo, Ana Maria Bahiana e Luís Antônio Giron sempre foram bem mais do que "falar do disco" e era essa uma das coisas que eu mais curtia.

 

Resumindo, o bom crítico não apenas fala sobre música, mas te faz pensar sobre essa música. Fora que serve para desinflar o ego de muito artista com complexo triplo de Zeus, Maomé e Jesus Cristo.

 

É por isso que agora, na internet, em tempos de Perez Hilton e gente falando de música mal e toscamente, eu acredito que o bom texto musical não só tem espaço como é mais necesário do que nunca.

 

Aí vão dez críticos pop de ontem e hoje que valem a pena.

 

Lester Bangs Americano que foi um primeiros por lá a botar pilha no punk. Foi demitido da Rolling Stone nos anos 70 por ser muito "desrespeitoso".

 

Ezequiel Neves Também conhecido como Zeca Jagger, tinha um dos textos mais ácidos da primeira versão brasileira da Rolling Stone, nos anos 70.

 

Pepe Escobar Farol dos anos 80 e um dos responsáveis por promover no Brasil toda uma nova geração de bandas inglesas como The Cure e Echo & the Bunnymen.

 

Greil Marcus Acadêmico de Berkeley, fez escola ao elaborar associações entre o rock e a cultura ocidental como um todo. Seu livro Mystery Train é um clássico.

 

David Toop Músico de ambient e um conhecedor profundo de todo tipo de música, do gamelan indonésio ao hip hop ao pós-punk ao jazz africano.

 

Nelson George O principal comentarista da cultura pop negra dos EUA, já escreveu livros sobre a Motown, o rap e "a morte do rhythm'n'blues".

 

Luis Antônio Giron Com formação musical erudita, fez história na Folha na virada dos 80 para os 90, ao demolir vários "intocáveis" da MPB.

 

André Forastieri Meu primeiro incentivador na Bizz. Antes escrevia na Ilustrada onde chamou a atenção pelo seu estilo direto, pop e sem papas na língua.

 

Jon Savage Inglês detalhista e criativo, autor do livro definitivo sobre a história do punk: England's Dreaming

 

Simon Reynolds Seu texto é quase acadêmico, pomposo às vezes, mas ele oferece "insights" poderosos e uma bagagem musical de cair o queixo.


Camilo Rocha
Camilo Rocha
Putz! Putz!
comentários
6 comentários
Zé Dito
Zé Dito(28.04.08)
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11° Camilo Rocha
Marina Lang
Marina Lang(22.04.08)
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poxa, que legal. na real sempre achei que o papel de "filtragem" do crítico se acentua nesse momento, justamente pela quantidade exacerbada de informações - muitas delas inúteis e historicamente incorretas.

adorei a listinha de críticos. particularmente, também gosto muito do estilo de escrita do ex-punk Tony Parsons. fluido, direto, engraçadíssimo e culto.

Diogo Dreyer
Diogo Dreyer(22.04.08)
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Grande texto, Camilo.
Acho que é importante também deixar claro que crítica é diferente de resenha. Todo esse povo que você citou era crítico: tinha/tem background, referência, talento e, principalmente, sensibilidade para poder analisar uma obra de forma completa. E isso só se consegue com muito tempo de prática e leitura, salvo raras exceções.

Já o que vemos muito no jornalismo atual - e em grande parte da internet - são resenhistas. Aí cai fácil na sua definição de apenas descrever de forma parca um disco qualquer sem conseguir estabelecer nada além das ligações óbvias e reproduzir conceitos e clichês.
HD
HD(22.04.08)
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Muito muito bom o texto. O que ando vendo ultimamente é gente que faz a "critica" de um trabalho sem ter nem escutado . Um exemplo bem rapido...dia desses li num jornal dinamarques uma "critica" sobre o novo album da Mariah Carey...o cara falou dos seios dela...da vida dela...mas nao falou NADA do conteudo do cd. E no final ainda deu 3 estrelas " ao trabalho dela" (de um total de cinco)...hahahahah

Li muito a ShowBizz...lia ate as criticas sobre artistas que nao era a minha praia. E aprendi muito com isso...e com a MTV da era "Caze...Fabio Massari...Soninha...Rodrigo P Funk...e a lista continua"...epoca que a internet nao era como hoje...eram as opcoes que eu tinha ...

Ainda bem que peguei essa otima escolinha...

Cheers!Parabens pelo texto.Adorei as novas referencias.Aula!

HD
B.RU.NO
B.RU.NO(21.04.08)
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Acho que o crítico exerce um papel que alguns tem preguiça e outros não tem tempo de fazer: que é conhecer aquilo que se ouve. Afinal, com o avanço da tecnologia não foram apenas as mp3, blogs, e etc que alteraram o mundo da música. Mas com o acesso à informação que se tem hoje, só não conhece quem não quer.

Eu mesmo, várias vezes me pego ouvindo um cd novo e indo atrás de informações sobre a banda... O crítico é um cara relamente bacana. Eu mesmo já cansei de me deleitar com resenhas suas aqui pro rraurl. Mas acho que exercer um papel necessário? não, não exerce.