Ufa! Deu trabalho mas ficou pronto. O top 100 Bate-Estaca da década, o melhor da música eletrônica/dance music/de pista dos anos 00.
Qualquer lista dessa magnitude (pensa bem, 10 ANOS de música, de gêneros que lançam aos quilos toda semana) já tem que começar com uma série de desculpas e justificativas.
A primeira é que esta lista não tem a menor pretensão de ser definitiva (aliás, existe isso, uma lista definitiva?)
TEM MUITO, FALTA MUITO
Tentei buscar um equilíbrio entre coisas relevantes, coisas que fizeram sucesso e coisas que eu acho incríveis. Como é impossível evitar meu filtro pessoal, já adianto que a lista contem sérias deficiências (quando não ausências) de alguns gêneros fortes desta década como 2-Step, UK garage, dubstep, drum`n`bass, trance, hard techno, soulful house, maximal, minimal, electro-rock, global ghettotech, broken beat, micro-house, IDM etc etc.
Para compensar um pouco, convoquei alguns especialistas como Marky e Andy, Márcio Vermelho, Database, Jota Wagner, Bruno Belluomini, DJ Jack, Flávia Durante, para fazerem top tens de gênero. Você pode vê-los aqui.
Tem coisas aí que viraram baba, tipo "Exceeder", do Mason, mas que quando saíram não eram tidas como tal. Além disso, são músicas que marcaram demais esse tempo e ajudaram a construir sua identidade sonora.
SEM PURISMOS
A lista contém alguns itens de hip hop, pop e rock que farão alguns puristas torcer o nariz. Mas estão aqui pela relevância, pela influência em outros gêneros (muitas foram tocadas por DJs fora do seu nicho e ganharam remixes de todo tipo) e, principalmente, porque são hits que tiram qualquer pista da dormência. E outra, quer coisinha mais anos 90 essa mania de querer compartimentar e purificar?
E que venham os comentários sobre quem faltou, quem não deveria estar etc etc.
Ah sim, clique no nome da faixa que você ouve ela no YouTube. Para as que não tinham lá, embedei um player.
2000
ANDREW MCLAUCHLAN - LOVE STORY (DEVILFISH REMIX) (Bush, 2000)
Techno de terreiro, talvez o melhor de uma leva de discos dessa época que sampleavam inlfuências afro-latinas. O original, bem mais melódico, é de 99, mas esse remix do Devilfish continuou fazendo santos baixarem em pistas por alguns anos década adentro. Boa opção para o começo, para a gente lembrar ou conhecer como os BPMs altos eram no começo dos 00.
DAFT PUNK - ONE MORE TIME (Virgin, 2000)
FATBOY SLIM - STAR 69 (Skint, 2000)
Na virada do milênio, dois superstars se cruzam na escada. Daft Punk com a faixa que o lançaria como um foguete em direção à estratosfera pop. Nos anos 00, a dupla francesa foi certamente o projeto eletrônico mais famoso do mundo, adorado por DJs de FM e clubbers, sem falar na nova geração hipster que se formaria e no novo tipo de fã indie 00, adepto de blogues, bandas e discotecagem.
Descendo na outra direção, Fatboy Slim entregava ao mundo seu último hit de qualidade. Um vocal grudento, mas original, e uma batida levanta-estádio, mas interessante. A partir daqui, ele continuaria com esses vocais e batidas, mas nem originais nem interessantes, até virar sinônimo de farofa.
HATIRAS feat SLARTA JOHN - SPACED INVADER (Defected, 2000)
Sublime faixa meio house meio space disco, mas nada a ver com Lindstrom e cia. de cinco anos depois. Aqui, o BPM é alto, mesmo sendo house (com pegada french touch). Coisas dos primeiros anos do milênio. Um remix drum'n'bass do J Majik garantiu presença dela em todo tipo de case.
LAURENT GARNIER - THE MAN WITH THE RED FACE (F Communications, 2000)
O mestre lançou neste ano seu melhor álbum, Unreasonable Behaviour. Em meio a tantas boas faixas, o destaque fica com o saxofone e o groove meia-luz da elegante "The Man..."
PEACHES - FUCK THE PAIN AWAY (Kitty-Yo, 2000)
Cheiro de coisa nova (e de sexo) tinha o som cru e urgente da desbocada Peaches. Havia algo borbulhando em Nova York, eletrônico mas com ênfase na personalidade. Saberíamos mais no ano seguinte.
PLUMP DJS - ELECTRIC DISCO (Finger Lickin', 2000)
Realeza do breakbeat em mais uma sessão entorta-cangote. Preparavam o terreno para a nova roupagem das batidas quebradas: o nu school breakz, rótulo que fazia muito sentido nesses tempos.
TECHNASIA - FORCE (Sino, 2000)
Música que é a cara do Love Club em tempos áureos. Pra se ter ideia de como eram as coisas, "Force" chamava a atenção e soava absurdamente diferente do que se ouvia numa noite de techno porque tinha VOCAL!
X-PRESS 2 - MUZIKIZUM (Skint, 2000)
Aqui três veteranos estavam em processo de ressurreição, já que os hits anteriores do X-Press 2 eram de 1993/94. Depois de arrebentar com "AC/DC", veio esse festival de piano eufórico.
2001
BASEMENT JAXX - WHERE'S YOUR HEAD AT (XL, 2001)
Sempre obcecados por cruzamentos de raças, desta vez eles se saíram com uma mistura de mastim napolitano e golden retriever. Vocal punk com teclado que rosna e batidão cheio de animação. Música de baderna.
DAVE CLARKE - THE COMPASS (Skint, 2001)
Clarke simbolizava no techno o esquemão anos 90 do DJ superstar, distante e metido. Ele adentrou na década acertando em cheio, com um techno que conseguia a proeza de marchar e ter molejo ao mesmo tempo. Clarke não conseguiria mais hits como esse. Foi até melhor. Hoje, ele mora em Amsterdam, vive uma vida menos glamurosa e dizem que ficou bem mais simpático. Continua, porém, totalmente sem papas na língua.
FISCHERSPOONER - EMERGE (Gigolo, 2001)
Electroclash! A palavra não soava ridícula no ano em que derrubaram as Torres Gêmeas. Soava bem também a postura, querendo tacar fogo no circo megalomaníaco e sem personalidade que tinha virado a cultura eletrônica. E soavam bem os primeiros hits, como este aqui e os logo abaixo.
VITALIC - LA ROC 1 (Gigolo, 2001)
DAVID CARRETTA - VICIOUS GAME (Gigolo, 2001)
THE HACKER & MISS KITTIN - FRANK SINATRA (Gigolo, 2001)
TIGA & ZYNHTERIUS - SUNGLASSES AT NIGHT (Electric Kingdom/Gigolo, 2001)
Enquanto Nova York gestava o electroclash, novas leituras "electro", de sons orgulhosamente sintéticos, pipocavam por toda parte. O selo International Gigolo Deejays, de DJ Hell, era a grife da estação. O Poney EP, de Vitalic, com "La Roc" é absurdamente clássico, contendo ainda as lendárias "You Prefer Cocaine" e "Poney Part 1". Tanto ele como David Carreta sinalizaram o caminho do electro para quem era mais chegado em techno.
Já Hacker & Kittin e Tiga & Zyntherius apostaram em canções e abordagens mais pop. Discos de seu tempo, "Frank Sinatra" debochava da cultura de celebridades, enquanto que "Sunglasses At Night" era cover de um hit trash dos anos 80, a década que seria referência vital para os anos 00. Sem falar que era a primeira aparição de Tiga, genuíno hitmaker da década
FUNK D'VOID - DIABLA (Soma, 2001)
Mesmo quem continuava fiel ao techno "techno", a essa altura movido quase que só a loops percussivos, efeitos especiais e ritmos cavalgantes, sentia um certo alívio quando apareciam faixas como "Diabla". Um tsunami melódico que transformava em manteiga até corações mais empedernidos.
LUOMO - TESSIO (Force Tracks, 2001)
SUPERPITCHER - HEROIN (Kompakt, 2001)
As dicas do que seria novo em techno e house começavam a se mostrar. E o caminho era o da economia. Menos elementos, menos camadas, mais sutileza, mais ênfase na essência de uma faixa. Um respiro benvindo.
METRO AREA - MIURA (Environ, 2001)
Sutileza também é uma boa palavra para se usar aqui. Só que enquanto Luomo bebia no soul e Superpitcher no rock, o Metro Area pegava de jeito um antepassado mais direto da música eletrônica, a disco music. Mas de um jeito nada disco, de um jeito... minimal? "Miura" é também uma influência assumida no som do Booka Shade.
STANTON WARRIORS - DA ANTIDOTE (Mob, 2001)
Com batidão quebra-queixo e racha-assoalho e um naco do electro old school "Boogie Down Bronx", de Man Parrish, isso aqui é a cara dos breaks do novo milênio. Produção cristalina, contratempo cheio e arranjos que vão direto ao assunto.
2002
AKUFEN - DECK THE WORLD (Force Inc, 2002)
No release da coletânea que gravou para a Fabric, o som de Akufen é descrito como "brilhantemente detalhado." Isso resume bem o micro-house, gênero baseado em caquinhos de samples e sons defeituosos ("glitch") que chamou a atenção nessa época. Além de Akufen, caras como Isolee e Matthew Herbert também eram conhecidos da cena "micro".
CHICKEN LIPS - HE NOT IN (Azuli, 2002)
De novo, a simplicidade é a rota para o genial. O baixo descendente de "He Not In" é uma dos mais identificáveis da década.
DJ RUSH - FUNK YOU UP (T:Classixx, 2002)
Na outra ponta, alguns nichos iam ficando cada vez mais hard. Apesar da aparente seriedade do techno peso-pesado, havia figuras como Rush, excêntrico, performático, ultra-gay e com senso de humor. Aqui ele põe o rap old school do Sequence para correr na esteira em velocidade máxima.
LAYO & BUSHWACKA! - LOVE STORY (XL, 2002)
Se você não ouviu essa em 2002, você não saiu a noite, simples assim. Com empréstimos de Devo e Nina Simone, a dupla londrina fez um mix brilhante de deep, tech e acessibilidade.
LUCIANO - AMELIE ON ICE (Mental Groove, 2002)
Onde o chileno traz Amelie Poulain para o after hours. Enxertando pedaços da trilha do filme (de Yann Tiersen) num groove electro-minimal, Luciano fez techno dramático, belo e ambicioso. Se tornaria um dos DJs mais conceituados dos anos 00.
DJ MARKY & XRS - LK (CAROLINA CAROL BELA) (V Recordings, 2002)
Esqueça Tom ou Gil. A música brasileira que mais alto chegou na parada pop inglesa (número 17) foi a de Marquinhos da Cangaíba e Xerxes de Vila Alpina. OK, o violão e de Jorge e Toquinho, mas e a batida, o grave, o MC? E a ideia, A IDEIA, de botar essa levadinha samba-rock pra desfilar com uma armadura drum`n`bass, isso ninguém tira deles.
O impacto dessa faixa, e de outros drum`n`bass tropicais que vieram (notadamente "Sambassim", de Patife e Fernanda Porto), foi tamanho que chacoalhou a matriz do gênero. Os brasileiros abriram a janela do quarto escuro do drum`n`bass britânico.
THE RAPTURE - HOUSE OF JEALOUS LOVERS (DFA, 2002)
Como bem se sabe, os anos 00 foram palco da "volta" do rock como força relevante e inovadora, a partir dos Strokes. Um crítico do jornal inglês Guardian falou até, para depois ser papagaiado à exaustão, na "morte da dance music". Como essa lista prova bem, uma grande besteira. O que caducou foi o velho sistema do DJ superstar dos anos 90.
E tanto não morreu a dance music que muito desse novo rock era altamente influenciado por ela (referências sonoras, remixes, samples, roqueiros brincando de DJs). Ninguém melhor que o selo nova-iorquino DFA e esse super-hit de 2002 para provar isso. Não é à toa que chamavam isso de disco-punk.
RENATO COHEN - PONTAPÉ (Intec, 2002)
O segundo grande momento de orgulho nacional do ano. Apardinhada por Carl Cox, o maior DJ do mundo na época, essa locomotiva foi o maior hit techno do ano. E seguiu conduzindo pistas ao frenesi em 2003, 2004, 2005...
SEELENLUFT - MANILA (EWAN PEARSON REMIX) (Backyard, 2002)
Os grooves mais electro e mais descontraídos iam ocupando os espaços na pista. O nome Ewan Pearson ganhou projeção como representante de uma atitude sonora aberta, que podia abarcar house, rock, electro e pop. Pearson remixou quem pode: Depeche Mode, Franz Ferdinand, Chemical Brothers, Goldfrapp, The Rapture etc
TOMAZ & FILTERHEADZ - SUNSHINE (Intec, 2002)
Percussão semi-sambada, toques melódicos e vocais carnavalescos. A casa desmoronava... sempre.
UNDERWORLD - TWO MONTHS OFF (Junior, 2002)
Com status de dinossauro já consolidado, os tios do Underworld mostraram aqui que ainda tinham bala na agulha. Sem pegar carona em nenhum modismo, fizeram o que sabiam fazer magnificamente: techno épico e melodioso, daqueles de olhar para o horizonte e sorrir. E a bala era boa.
2003
BEYONCÉ & JAY-Z - CRAZY IN LOVE (Columbia, 2003)
Resumgue se quiser, mas esse foi um dos momentos em que o hip hop/R&B mais acertou na veia. Os metais, sampleados de um hit dos anos 70 do Chi-Lites, o groove sinuoso, o vocal pimp de Jay-Z e a entrada triunfal da sua rainha. Matador.
BRYAN ZENTZ - D-CLASH (Intec, 2003)
Estouro do techno que aos ouvidos de hoje soa bem acelerado. Mas em 2003 não era. Por causa do tecladão a la "Good Life", tinha gente que chamava até de tech-house nessa época. Errado. Era techno clássico, e de primeira.
Um dos últimos instantes de glória do techno a la anos 90.
Em três ou quatro anos, aconteceria o que foi talvez a maior migração musical em massa de que se tem notícia. Praticamente todos os figurões desse technão loopado, funky, casa dos 140 BPM (Umek, Valentino, Chris Liebing, Adam Beyer etc), mudaram a cara do seu som para se adaptar aos novos tempos.
CHROMEO - NEEDY GIRL (Vice, 2003)
Diversão musical mais que benvinda em uma cena que às vezes se leva a sério demais. Essa dupla canadense patenteou um electro cafajeste, embebido em anos 80, que fazia qualquer um suingar.
FREELAND - WE WANT YOUR SOUL (Maximise Profit, 2003)
Música eletrônica de protesto de um dos maestros do breakbeat. Um dedo médio em direção ao consumismo desenfreado conduzido por um robo-groove quebrado.
Falando em robo-groove, esta aqui veio sem aviso. Sim, porque ninguém esperava que o pioneiro LFO, de quem ninguém sabia o paradeiro, forjasse um dos hits do ano, um pancadão digital demente com direito a curto-circuito no final.
MATTHEW DEAR - DOG DAYS (Spectral Sound, 2003)
Cruzando elementos de minimal, deep, glitch e o que aqui chamaram de "jamanta house" (housão com um parafuso a menos), o americano Dear cravou seu primeiro hit de pista. E como iríamos ouvir falar dele: False, Audion, Jabberjaw, lançamentos pela Ghostly, Spectral Sound, Get Physical, M_nus...
SPEKTRUM - KINDA NEW (TIEFSCHWARZ REMIX) (Playhouse, 2003)
É difícil precisar (ou lembrar hehe) quando se começou a usar o termo electro-house para definir uma série de produções que eram house, mas com acabamento bastante eletrônico, firulas digitais e uma pegada sintética. Eu calculo que tenha sido entre 2002 e 2003, em meio a faixas de Ewan Pearson, Kiki, D Ramirez e dos irmãos Schwarz, que gravam como Tiefscwarz. Depois de anos gravando house mais tradicional, este foi seu primeiro hit na fase electro-house.
Leia mais: 2004-2006, 2007-2009, DJs elegem suas favoritas da década
Putz! Putz!





Arrasou! :*
2000, 2001, 2002 e 2003. Pra mim, foram OS anos. Muita festa BOA com gente BOA, morar em republica com dois outros DJs, muita loucura da boa, e isso sem contar coisas mais pessoais..
Só sei que a maioria dessas faixas que o Camilo listou são trilhas sonoras fortissimas desse tempo excelente!
Vou é fazer logo uma mixtape com essas e outras faixas pra nunca mais deixar de escutar, rsrs.
Mais uma vez, obrigado Camilo.
Pontapé, force, laurent garnier e o techno na faixa dos 140 bpm, era lindo!