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O techno fez 25 anos, você acredita?
03.11.09 08:51

 ft_technocity

Sempre achei complicado cravar uma data exata para o nascimento de um gênero musical. Para mim, os gêneros surgem através de desenvolvimentos, cruzas que progressivamente vão tomando identidade própria até um dia merecerem sua própria gaveta.

 

Isso vale para o rock, para o jazz, para a disco. E para o techno também. O techno não foi trazido um belo dia pela cegonha. Ele foi se moldando organicamente, fruto de anos de Kraftwerk, o funk astronauta de Geroge Clinton, disco, italo, electro, proto-house, Depeche Mode, Human League, Alexander Robotnick e Afrika Bambaataa. Tudo isso desaguou em Detroit, começando a desenhar algo novo.

 

Aquele que é considerado o "pai do Techno", Juan Atkins, tinha desde o começo dos anos 80 um grupo que surfava a onda criada por "Planet Rock", de Bambaataa. Este grupo, o Cybotron, era um grupo de electro clássico: bateria eletrônica robótica, tecladeira gélida e temas futuristas, letras sobre robôs e mega-cidades decaídas (ou seja, cyberpunk na veia).

 

Um dia o Cybotron lançou uma música chamada "Techno City", um devaneio melancólico sobre a metrópole tecnocrática. Uma mistura de referências à sinistra Detroit do presente (onde mendigos e nóias vagam pelas ruas tendo ao fundo o trio de maciças torres de vidro da General Motors) e a essa cidade do futuro, idealizada, romântica e por isso mesmo utópica. Se a socidade robotizada e dominada pela tecnologia podia ser algo bem nefasto, os criadores de Detroit trataram de reivindicar uma outra via, um lugar ideal, onde as máquinas fossem subvertidas para o bem comum.

 

"Techno City" é considerado assim, meio arbitrariamente, o marco zero do techno. Logo depois, Juan Atkins começou a gravar com um novo projeto chamado Model 500, seguido por dois DJs pupilos: Derrick May e Kevin Saunderson. Já o termo "techno", para batizar tudo que esse povo estava fazendo surgiu apenas em 1984, três bons anos depois de "Techno City", cunhado também por Atkins para servir a mídia inglesa que precisava de um nome para o movimento. Até então, o techno era vista apenas como um house mais abstrato e mecânico.

 

 

Mas vá lá, levemos as coisas ao pé da letra: sendo "Techno City" de 1984, o techno completou 25 anos em 2009! Que falta de consideração a nossa que até agora ninguém tenha soltado fogos, promovido festas e lançado edições especiais de discos ou revistas.

 

Tudo bem que hoje em dia, o gênero não é mais A vanguarda, a ponta de lança da sonoridade eletrônica. Mas estamos falando de um estilo dos mais influentes das últimas décadas, que informou de Radiohead a Aphex Twin a Madonna a Pet Shop Boys.

 

Isso mostra que o techno é e sempre será um gênero de alma underground. Sim, nem com toda idade, experiência e influência, techno não é assunto para capa da Rolling Stone ou da Ilustrada.

 

No último domingo (1), eu e o DJ Rodrigo França tocamos um set de clássicos do techno na Clash. Tocamos coisas tipo:

 

Positive Education - Slam

Tiga & Zyntherius - Sunglasses At Night (Chris Liebing Mix)

LFO vs FUSE - Loop

Renato Cohen - Random Collection

Laurent Garnier - The Man With the Red Face

 

Dave Clarke - The Wiggle

Jaydee - Plastic Dreams

Alter Ego - Rocker

Nitzer Ebb - Murderous (Phil Kieran remix)

Valentino Kanzyani - House Soul

 

A reação do público foi apaixonada, coisa de quem guarda essas músicas há muito tempo na cabeça e no coração. Uma menina veio pra mim depois e falou: "Obrigado, vocês tocaram a trilha da minha vida."

 

É, o techno já tem idade para isso. E isso vale mais que qualquer capa da Rolling Stone ou da Ilustrada.

 

Aguarde nos próximos dias, mais posts celebrando os 25 anos do techno.


Camilo Rocha
Camilo Rocha
Putz! Putz!
comentários
20 comentários
gui xavier
gui xavier(19.11.09)
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Muito bom mesmo!

Vale lembrar que o Toffler já tinha falado em "Techno Rebels" no Choque do Futuro, de 1970, e que os caras de Detroit leram "de com força", inspiração declarada por eles.

Eita nóis, a idade vem mesmo, rsrs.
Daniel Soares
Daniel Soares(09.11.09)
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tenho a mesma idade do Techno, mas na verdade o conheço a apenas uns 7 ou 8 anos.
Porém sempre procurei por ouvir muita coisa e pode ter certeza que essa tracklist que você colocou ai é parte da minha história também!

ta na hora de rolar um set desses por aqui no Garage qualquer hora também..
Camilo Rocha
Camilo Rocha(04.11.09)
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Ah, infelizmente não gravamos...
Camilo Rocha
Camilo Rocha(04.11.09)
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"Rocker" não é techno? OK, blz então, electro-techno, mas ainda assim techno.
Rodrigo|Digha
Rodrigo|Digha(04.11.09)
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Interessante é que eu já vi algumas entrevistas antigas com o pessoal do Kraftwerk em que eles utilizam o termo 'techno music' pra definir sua música;
logicamente num sentido literal, mais amplo, o de 'música tecnológica'.

O que pra mim faz o maior sentido;
e até meados dos 90s 'techno music' era praticamente sinônimo de 'e-music';
depois é que começou essa frescura de subgênero do subgênero do subgênero do gênero tal.