Sempre achei complicado cravar uma data exata para o nascimento de um gênero musical. Para mim, os gêneros surgem através de desenvolvimentos, cruzas que progressivamente vão tomando identidade própria até um dia merecerem sua própria gaveta.
Isso vale para o rock, para o jazz, para a disco. E para o techno também. O techno não foi trazido um belo dia pela cegonha. Ele foi se moldando organicamente, fruto de anos de Kraftwerk, o funk astronauta de Geroge Clinton, disco, italo, electro, proto-house, Depeche Mode, Human League, Alexander Robotnick e Afrika Bambaataa. Tudo isso desaguou em Detroit, começando a desenhar algo novo.
Aquele que é considerado o "pai do Techno", Juan Atkins, tinha desde o começo dos anos 80 um grupo que surfava a onda criada por "Planet Rock", de Bambaataa. Este grupo, o Cybotron, era um grupo de electro clássico: bateria eletrônica robótica, tecladeira gélida e temas futuristas, letras sobre robôs e mega-cidades decaídas (ou seja, cyberpunk na veia).
Um dia o Cybotron lançou uma música chamada "Techno City", um devaneio melancólico sobre a metrópole tecnocrática. Uma mistura de referências à sinistra Detroit do presente (onde mendigos e nóias vagam pelas ruas tendo ao fundo o trio de maciças torres de vidro da General Motors) e a essa cidade do futuro, idealizada, romântica e por isso mesmo utópica. Se a socidade robotizada e dominada pela tecnologia podia ser algo bem nefasto, os criadores de Detroit trataram de reivindicar uma outra via, um lugar ideal, onde as máquinas fossem subvertidas para o bem comum.
"Techno City" é considerado assim, meio arbitrariamente, o marco zero do techno. Logo depois, Juan Atkins começou a gravar com um novo projeto chamado Model 500, seguido por dois DJs pupilos: Derrick May e Kevin Saunderson. Já o termo "techno", para batizar tudo que esse povo estava fazendo surgiu apenas em 1984, três bons anos depois de "Techno City", cunhado também por Atkins para servir a mídia inglesa que precisava de um nome para o movimento. Até então, o techno era vista apenas como um house mais abstrato e mecânico.
Mas vá lá, levemos as coisas ao pé da letra: sendo "Techno City" de 1984, o techno completou 25 anos em 2009! Que falta de consideração a nossa que até agora ninguém tenha soltado fogos, promovido festas e lançado edições especiais de discos ou revistas.
Tudo bem que hoje em dia, o gênero não é mais A vanguarda, a ponta de lança da sonoridade eletrônica. Mas estamos falando de um estilo dos mais influentes das últimas décadas, que informou de Radiohead a Aphex Twin a Madonna a Pet Shop Boys.
Isso mostra que o techno é e sempre será um gênero de alma underground. Sim, nem com toda idade, experiência e influência, techno não é assunto para capa da Rolling Stone ou da Ilustrada.
No último domingo (1), eu e o DJ Rodrigo França tocamos um set de clássicos do techno na Clash. Tocamos coisas tipo:
Positive Education - Slam
Tiga & Zyntherius - Sunglasses At Night (Chris Liebing Mix)
LFO vs FUSE - Loop
Renato Cohen - Random Collection
Laurent Garnier - The Man With the Red Face
Dave Clarke - The Wiggle
Jaydee - Plastic Dreams
Alter Ego - Rocker
Nitzer Ebb - Murderous (Phil Kieran remix)
Valentino Kanzyani - House Soul
A reação do público foi apaixonada, coisa de quem guarda essas músicas há muito tempo na cabeça e no coração. Uma menina veio pra mim depois e falou: "Obrigado, vocês tocaram a trilha da minha vida."
É, o techno já tem idade para isso. E isso vale mais que qualquer capa da Rolling Stone ou da Ilustrada.
Aguarde nos próximos dias, mais posts celebrando os 25 anos do techno.
Putz! Putz!





Vale lembrar que o Toffler já tinha falado em "Techno Rebels" no Choque do Futuro, de 1970, e que os caras de Detroit leram "de com força", inspiração declarada por eles.
Eita nóis, a idade vem mesmo, rsrs.
Porém sempre procurei por ouvir muita coisa e pode ter certeza que essa tracklist que você colocou ai é parte da minha história também!
ta na hora de rolar um set desses por aqui no Garage qualquer hora também..
logicamente num sentido literal, mais amplo, o de 'música tecnológica'.
O que pra mim faz o maior sentido;
e até meados dos 90s 'techno music' era praticamente sinônimo de 'e-music';
depois é que começou essa frescura de subgênero do subgênero do subgênero do gênero tal.