A camiseta foi um hit em 1993/94 na Europa. Lançada pelo então famoso selo Rising High, trazia a inscrição "Faceless Techno Bollocks" ou, numa tradução livre, "Porra de techno sem rosto". Era a clássica tática de inverter uma denominação negativa, transformando-a em afirmação de orgulho.
Sim, nesse tempo o techno, a house, o drum'n'bass e o trance se orgulhavam de não ter rosto, de ser apenas música, música para ser consumida sem que fosse preciso conhecer a cara ou a personalidade ou a roupa Diesel que o produtor tinha.
Eram tempos mais ingênuos, mais militantes. Tempos de criar paradigmas para uma música ainda com cheiro de tinta fresca que fossem totalmente opostos ao culto à personalidade que imperava no pop e no rock. Ninguém sabia quem era Aphex Twin ou Altern 8 (na foto), demorou anos até se conhecer a cara dos Daft Punk.
O DJ Mr. C relembrou essa época ao promover esses dias o lançamento de seu antigo selo, Plink Plonk, no Beatport. Ele exigia que artistas lançando pelo Plink Plonk não usassem seu nome verdadeiro. "Queria que a música fosse a razão de tudo, e não o hype. Você pode fazer música incrível. Mas se não for um nome reconhecível, ela não registra no radar."
Impossível que essa pureza de princípios sobrevivesse à popularização e a necessidade que temos de ter ídolos e heróis. E então vieram Prodigy, Chemicals e cia., convertendo eletrônica em moeda pop/rock. Vieram as grandes gravadoras, as revistas e publicações e sua procura por imagens. Vieram os DJs superstars.
Era só o começo do processo. Nos anos 00, a cultura da imagem e do ego explodiu como nunca, alavancada pelo culto às celebridades, as câmeras digitais acessíveis e a internet.
Quando olho as milhares de páginas de produtores no Beatport, fico pensando: se existe alguma originalidade aqui ela deve estar apenas na música. Está certo que a velha imagem do fone caiu em desuso, mas será que ninguém consegue ir além de usar a própria foto como imagem? O que aconteceu com máscaras, fantasias, símbolos, ilustrações, efeitos nas fotos? Não há mais nenhum mistério na imagem de quem faz música eletrônica. O efeito final é genérico. Não se diferencia quase ninguém. Ironicamente, ficou tudo sem rosto outra vez, só que pelo caminho inverso.
Simbólico também estarmos fechando a década com o "sucesso" do DJ Jesus Luz, que virou a fórmula do avesso: 100% imagem, 0% música. É claro que ele não é o primeiro DJ celebridade, a década foi farta deles, mas pelo que me lembro nenhum realmente acreditava ou tentava passar recibo como DJ de verdade. Jesus Luz não. Esse se leva a sério, acredita que seu som "tem poder", como expressou numa camiseta.
É a cara dos nossos tempos. Vai longe esse menino!
Putz! Putz!




