Foi no Harlem, o tradicional bairro negro de Nova York. Seis fins de semana de música e ativismo entre julho e agosto de 1969. Os Panteras Negras fizeram a segurança.
Na semana em que se comemora os 40 anos de Woodstock, um cara que manja isso e mais um pouco de música trouxe à tona a informação de que existe um registro filmado sobre um evento paralelo que é tão importante quanto. Esse evento, o Harlem Cultural Festival, ficou conhecido como Black Woodstock (*).
Alan McGee, ex-dono do selo Creation, lançador de gente como Oasis, Primal Scream e My Bloody Valentine, falou em seu blog no Guardian sobre a existência de um raríssimo vídeo do festival.
A história da música negra, soul, funk, disco etc, coisas formadoras de muito do que ouvimos hoje, bem que merecia ser beneficiada por algum sistema de cotas do mundo dos filmes ligados à música.
Veja você, enquanto Woodstock merece até filme de Ang Lee (Brokeback Mountain, Hulk), as imagens de Black Woodstock jazem em arquivos inacessíveis. O festival foi registrado apenas pela equipe do diretor Hal Tulchin. Na época, ele tentou vender o filme para algumas emissoras de TVs. "Não, obrigado, festival negro não dá audiência" foi a resposta-padrão.
O precioso documento foi desenterrado há alguns anos pelo documentarista Joe Lauro, que mantém o Historic Films, um vasto acervo de registros musicais com mais de 30 mil volumes. Ainda não há previsão de qualquer lançamento comercial.
UM DOS MELHORES LINEUPS DA HISTÓRIA
O Woodstock negro tinha no elenco Sly and the Family Stone (que, dias depois, tocaria no outro Woodstock), Stevie Wonder (na foto), B.B. King, Nina Simone, Hugh Masekela, Herbie Mann, Mongo Santamaria, Mahalia Jackson, Fifth Dimension e Gladys Knight and the Pips. Para mim, configura um dos melhores lineups da história da música ocidental.
Mas a parte musical é só metade da graça e da relevância do festival. Em 1969, os EUA viviam forte clima de tensão racial, com o endurecimento do conservadorismo no lado branco e gente pegando em armas e soltando bombas no lado negro.
Direitos civis iguais já eram lei, graças aos esforços da cruzada de Martin Luther King alguns anos antes. Mas a igualdade no papel estava longe de ser reproduzida na vida real, com os guetos negros ainda marcados por violência, drogas e falta de oportunidades. Cidades como Detroit e Los Angeles foram palco de sangrentos distúrbios na segunda metade dos anos 60.
O orgulho negro, expresso por James Brown em "Say it Loud (I'm Black and I'm Proud)" (diga alto, sou negro e com orgulho) e pelos atletas olímpicos que no pódio fizeram a saudação "black power", estava em alta. Em grande parte em tom moderado, mas com muitos enxergando o radicalismo como única saída. A organização Panteras Negras, que praticava ações sociais, mas também guerrilha urbana, tinha vários membros na lista de procurados do FBI.
Querendo lavar as mãos de eventuais incidentes, a polícia de Nova York se recusou a fazer a segurança do festival. No lugar dela, entraram os Panteras Negras. O medo da polícia era paranóia infundada. Apesar das 100 mil pessoas presentes, o evento transcorreu na paz do Senhor. Uma mulher que foi contou: "Estava calor demais e lotado, com gente sentada até nas árvores. Mas não rolou nenhum problema".
Era um tempo engajado e com fome de mudança. Quando Roebuck "Pops" Staples, dos Staple Singers, falou ao microfone ele nem poderia imaginar o quanto estava sendo profético:
"Você saía atrás de um emprego e não conseguia. E você sabe por quê. Mas agora você foi para a escola. Nós podemos exigir o que queremos. Isso não é o certo? Então, vão para a escola, crianças, e aprendam tudo que puderem. E, quem sabe, alguma coisa mudou e pode ser que você um dia seja o presidente dos Estados Unidos."
(*) Em 1972, rolou o festival Wattstax, em Los Angeles, também apelidado de Black Woodstock por alguns e disponível em DVD. Mas o evento do Harlem é mais merecedor do título por ter acontecido exatamente na mesma época que o Woodstock original.
Aí vão dois momentos do Black Woodstock.
Nina Simone - Ain't Got No I Got Life/I Loves You Porgy
Sly and the Family Stone - M'Lady
Putz! Putz!





todos sem exceção tem que ver esse filme "os panteras negras"
good vibesssss
Entre os caras que diziam isso certamente deviam estar os mesmos que hoje choram o fim do monopólio na indústria de discos e de filmes.
Qdo eu diigo que c vivesse essa época eu já estaria morta, não é à toa...;]
Bjks.