
A essência da música pop é criar mundos imaginários e convidar as pessoas a experimentá-los - Brian Eno
Rolou há pouco tempo o boato de que David Bowie iria reencenar Ziggy Stardust para os palcos de 2009. No fim, era nada mais que um rumor criativo.
Melhor assim! Em 2009, nada mais anacrônico do que Ziggy Stardust e tudo que ele representa.
Ziggy Stardust, para quem chegou na terceira aula, foi um dos muitos personagens inventados por Bowie na década de 70. Era um rockstar alienígena, um ícone pop cósmico, algo que não era deste mundo.
ESCAPISMO
Exatamente como eram os rockstars de sua época: gente como Jim Morrison, Robert Plant, Marc Bolan e Mick Jagger não habitava o mesmo mundo que os mortais comuns. E aí estava grande parte de seu fascínio. Seu mundo era uma realidade paralela envolta em mistério, glamour, magia e inacessibilidade. Eram ícones, deuses, pessoas para quem as regras normais não se aplicavam.
Eles ofereciam o sonho máximo escapista da música pop: sair do trivial, do tedioso da vida comum. Era um escape colorido, por onde queriam passar milhões de garotos e garotas ao redor do planeta, oprimidos em sua individualidade pelo cinza do dia-a-dia.
Se você era meio esquisito, pensava diferente, não se encaixava na escola, ou gostava de pintar o olho, aqui estava um fabuloso universo no qual podia se espelhar, se refugiar, sonhar um dia fazer parte. A mensagem era que, como diria aquele pessoal do Fórum Social Mundial, "um outro mundo é possível".
OS PUNKS E A INTERNET
Tudo isso foi sendo demolido aos poucos.
Primeiro, foram os punks e seu (necessário) manifesto de que qualquer um podia ter uma banda. Tudo bem que o que queriam eram a democratização do sonho de ser diferente e sair do marasmo (até então privliégio de poucos). Mas, depois deles, qualquer ilusão de grandeza no pop, para o bem e para o mal, passou a ser vista com desconfiança ou mesmo escárnio.
Depois veio a acid house, o sampler e a revolução dos DJs, que elevaram o "faça-você-mesmo" do punk a níveis, agora sim, democráticos de verdade.
A internet terminou o processo: não só os meios de produção, mas os de divulgação e de distribuição, estavam ao alcance de todos. Agora todo mundo podia mesmo ser um popstar (E o que quer dizer ser um popstar nos dias de hoje? Nada. A molecada está mais interessada em novas tecnologias e nos ídolos do esporte).
PÁ DE TERRA
Paralelamente a tudo isso, veio a pá de terra definitiva: a cultura das celebridades e os paparazzi. Graças a eles, sabemos que fulano também tem problemas com o carro, com a louça em casa (aquele reality show com o Ozzy tem muito a responder por essa parte), cutuca o nariz e tem celular que não pega. E como nos deliciamos cada vez que vemos um famoso envolvido em alguma pataquada! Não há mais magia, glamour ou mistério envolvendo as altas esferas. Suas vidas estão escancaradas, em closes e cores vivas, por toda internet.
Mais democrático? Certamente. Mais sem graça? Bastante.
Assim, se algum dia Ziggy Stardust resolver aterrissar de novo no Planeta Terra, ele não reconhecerá o lugar por onde andou em 1972. E nos o consideraremos apenas uma relíquia pitoresca.
Putz! Putz!




Depois do the girlie show o que sobrou?
Do under das Acid raves?
Do Black Sabbah?
dos mega shows do U2?
do show da xuxa e a sua nave de isopor, rs!?
Pois sim! Ziggy, Lápis de olho, atitude, raça, magia e uma pitada de surrealismo sonoro com muita fantasia em minha vidinha. Não cheguei a tempo (já que nasci no último ano desta década). O fato é que Bowie não o traria de volta (mesmo). E vc, mestre... Bem sabe.
Foda! Bate-estaca de café precioso.
Bom carnaval, Camilão! Abraço!