Salas de cirurgia. Velórios. Salas de aula. Reuniões de trabalho. Sessões de meditação. Hmmmm... olha, é preciso um certo esforço para pensar em locais onde não dá para escutar música hoje em dia. Afinal, hoje podemos ouvir música em praticamente qualquer lugar.
Na verdade, só deixamos de ouvir música nos lugares que citei acima porque não é permitido. Se fosse, tenha certeza que boa parte de nós estaria com o foninho enfiado no ouvido, vazando um "tik-ti-tik-tik-ti-tik" para os outros presentes.
MÚSICA SEM MÚSICOS
Há meros cento e poucos anos atrás, ouvir música profissionalmente executada era bem mais difícil. A não ser que alguém na família soubesse tocar piano ou bandolim, só era possível em lugares públicos. Aí veio Thomas Edison e inventou o fonógrafo, permitindo que música fosse executada sem a presença de músicos. O resto da história você conhece bem...
É por isso que a idéia de um Dia Sem Música é tão radical. É quase como propor um dia sem beijo ou um dia sem conversa. Mas tem um cara que leva isso muito a sério: o ex-KLF Bill Drummond, que há quatro anos estabeleceu o dia 21/11 como o Dia Sem Música. Ele está no Brasil para divulgar sua idéia.
Aproveitando a data, reproduzo aqui um texto que fiz há alguns meses para a revista Essential Mag (cujo pessoal hoje toca a Electro Mag). Acho que vale como reflexão para o "Dia Sem Música".
(Em tempo: não consegui ficar um dia sem música. Logo que cheguei no trabalho, a recepcionista estava sintonizada na Jovem Pan. Rolou "Infinity", do Guru Josh, e "Umbrella", da Rihanna)
MÚSICA DEMAIS!
Estamos escutando música demais. Não, não é uma pergunta. Nós estamos sim, escutando música demais. A internet banda larga e os softwares de produção musical elevaram a trilionésima potência a quantidade de música despejada no universo toda semana.
Hoje em dia, as pessoas não falam mais em quantos discos ou CDs tem mas sim em quantos gigas de música tem. "Eu tenho 70 giga de música", disse outro dia um conhecido DJ. "Outro dia fulano foi em casa e me passou cinco giga de tech-house da Eslováquia", disse outro. Legal! Ótimo! Mas vem cá, um giga dá umas mil músicas. Se a gente fizer uma média de quatro minutos por música, isso dá 66 horas. Faz as contas agora, 70 giga dá quase 200 dias de música sem repetir. Algum dia vai dar tempo de escutar tudo isso? É claro que não.
Antes que alguém me chame de reacionário e chato, quero deixar claro que, na dúvida, melhor o excesso do que a falta. Eu também vivo inundado de música no meu dia a dia e estou sempre procurando mais. Mas acho que, mesmo assim, vale a gente refletir um pouco sobre o que significa tudo isso.
Bom, pra começar significa que a música hoje atingiu um nível inédito de descartabilidade. Pergunte para qualquer DJ sobre o que ele está tocando. Numa semana ele tem um playlist mas no seguinte ele pode ter um completamente diferente. Pode crer que 90% do que ele tinha de mais antigo vai para os rincões do HD para nunca mais ver a luz do dia. Tem grandes bandas lançando discos esse ano, como Vampire Weekend, MGMT e Hercules & Love Affair, mas todas com sério risco de serem rapidamente esquecidas.
Vai ser interessante ver daqui a dez anos quais serão os "clássicos" da pista de dança dos dias de hoje, aquelas que marcaram a geral e que todo mundo lembra. Será que eles vão ter a mesma força que tem hoje "Around the World", do Daft Punk, ou "Out of Space", do Prodigy, para quem viveu os anos 90? Improvável.
Outra das consequências do dilúvio musical que vivemos é o fator "tudo é muito parecido". Afinal, não tem tantos músicos geniais e inovadores tendo idéias fantásticas por aí. O pioneiro do electro, Alexander Robotnick, resumiu a situação: "Nos anos 60 e 70 não havia gêneros musicais mas apenas os fundamentais como jazz, rock e clássico. Cada banda ou artista era uma coisa diferente. E aí existiam aqueles que os imitavam. Hoje, se você imita um artista você não é considerado um imitador mas sim alguém que pertence àquele gênero musical."
Já faz alguns anos, um cara chamado Bill Drummond, ex-membro da banda KLF (autores de hits dos anos 90 como "3 AM Eternal") e um provocador das artes, vem propondo o "dia mundial sem música". A idéia é que passemos um dia inteiro sem ligar o iPod, sem clicar no iTunes, sem escutar nenhum tipo de música. Bizarro não? Mas seria bem interessante ver como seria um mundo completamente ausente de música. Nos dias de hoje, é talvez uma idéia pra lá de radical. Será que só aí teríamos realmente uma noção do enorme valor que a música tem nas nossas vidas?
Putz! Putz!




1- Quando li seu texto (na revista) considerei um dos melhores que já escreveu. Algo totalmente atemporal, que servirá de exemplo daqui pra frente.
2- Li a entrevista com o Bill e apesar do cara ter um pensamento interessante, essa idéia é estúpida. Ele mesmo falou que na real, "é um belo pretexto pra viajar para o Brasil" (sic).
3 - "Sem música, a vida seria um erro" - Friedrich Nietzsche